Wanda Monteiro, a estrela sobe
por Luiz Ismaelino Valente (*)
por Luiz Ismaelino Valente (*)
Cedendo à irresistível tentação, nem vacilei em surrupiar o título do romance de Marques Rebelo e do filme homônimo de Bruno Barreto para registrar um acontecimento da maior importância para mundo cultural do Pará: na noite de 17 de junho de 2009, o hall Benedicto Monteiro, do Centur, em Belém, foi o palco iluminado do lançamento, em meio a um show lítero-musical, do primeiro livro de Wanda Monteiro – “O Beijo da Chuva”.
Para a mídia em geral e mesmo parWanda Monteiro, a estrela sobe
por Luiz Ismaelino Valente (*)
Cedendo à irresistível tentação, nem vacilei em surrupiar o título do romance de Marques Rebelo e do filme homônimo de Bruno Barreto para registrar um acontecimento da maior importância para mundo cultural do Pará: na noite de 17 de junho de 2009, o hall Benedicto Monteiro, do Centur, em Belém, foi o palco iluminado do lançamento, em meio a um show lítero-musical, do primeiro livro de Wanda Monteiro – “O Beijo da Chuva”.
Para a mídia em geral e mesmo para os espíritos mais atilados, é tentador associar (ou comparar) a obra da nova estrela, que veio refulgir no céu da literatura paraense, com a do seu famoso pai – o advogado, político, contista, historiador, poeta e romancista Benedicto Monteiro.
De fato, “filho de peixe, peixinho é” – diz a milenar sabedoria do caboclo destas plagas.
Mas convém não restringir a abordagem da produção literária de Wanda Monteiro unicamente ao liame genético inquebrantável que a prende ao autor de “Verde Vagomundo”, “O Minossauro”, “A Terceira Margem”, “Aquele Um”, “O Homem Rio” – e tantas outras obras que se tornaram clássicos da literatura amazônica.
Creio ter sido um dos primeiros, se não o primeiro, a ressaltar publicamente (perante os imortais confrades de seu pai na Academia Paraense de Letras, em palestra que lá proferi em 4 de novembro de 2008, a convite dos acadêmicos Edson Franco e Júlio Victor Moura, a propósito do meu ainda inédito “Memorial Poético de Alenquer”) – que, muito embora ela tenha herdado do pai a veia literária, é inquestionável que Wanda Monteiro “ostenta farol próprio a iluminar seus passos.”
Naturalmente, não terá sido nada fácil para Wanda, a filha, superar (não no sentido de destruir, mas de exceder, de acrescentar) a grandiosa, imponente e abrangente influência paterna, para, a partir dela, erguer a catedral do seu próprio e inconfundível estilo na arte poética, e, assim, brindar os seus leitores com peças inegavelmente antológicas como os poemas de “O Beijo da Chuva”.
É claro que o filho ou a filha não tem, obrigatoriamente, de se “distanciar”, de se “livrar” ou de se “libertar” da ascendência paterna para desbravar o seu mundo “independente”, mas, quando alguém decide realmente assumir o compromisso da entrega total e incondicional à arte, por qualquer de suas formas, tende, de modo natural e irresistível, a buscar a sua própria marca, a perseguir uma identidade ímpar, a construir, pedra por pedra, seu estilo pessoal, pois a verdade é que – “Le style est l’homme même”, como ensinou Buffon.
Alguns certamente estranharão essa estréia literária um tanto quanto tardia. Mas Wanda Monteiro não se fez de repente: sua obra é fruto de paciente, minucioso e irreversível amadurecimento intelectual e artístico.
Como a frágil lagarta, Wanda teve primeiro que se transformar em crisálida, tornando-se, assim, um autêntico lepidóptero, mas, para isso, precisou vencer a prova de resistência mais difícil de todas: romper o casulo no seio do qual se operou o milagre da transformação, para, então, e só então, voar livre e graciosa como borboleta.
O lento e prolongado processo evolutivo não pode ser alterado sem que se rompa a ordem natural das coisas. E Wanda não podia, logicamente, ceder, como deveras não cedeu, ao ímpeto, à pressa, à sofreguidão, à ligeireza no trato da palavra.
Sem a santa paciência e a resoluta persistência, Wanda Monteiro, a pequena lagarta, não se transformaria em borboleta, pois não conseguiria arregimentar as forças necessárias para sair do cárcere sedoso do casulo e ganhar as alturas das nuvens.
É com cândida franqueza, aliás, que Wanda Monteiro confessa, num de seus poemas, a delicada angústia, o terno embaraço, a criativa hesitação que a dominaram quando quis expressar sua peculiar inquietação diante do mundo – seja o real, seja o sonhado.
Pois foi exatamente assim que aconteceu quando a jovem adolescente, “com medo que as palavras cumprissem, sem o seu consentimento, sua sina de engendrar sonhos no Papel, engoliu as palavras e cravou os dentes, enclausurando-as”, ainda tão frágil como a crisálida, impotente diante do pergaminho imaculado:
O papel ficou olhando pra ela.Luzindo.Pobre do Papel.BrancoÁvido.À espera do primeiro verbo.
É, pois, com absoluta procedência e pontaria certeira que Carlos Correia Santos mira e atira na contra-capa de “O Beijo da Chuva”:
– “Ser herdeira das páginas escritas por um Monteiro tão Benedicto pode não ser genética das mais simples. Traz em si toda a placenta do desafio. Mas Wanda… ah, Wanda inventou de ir namorar a lua, foi se desnudar para o vento, beijou a chuva e o inevitável veio. Ficou grávida de pura arte. Fez-se mãe. Mãe de suas próprias páginas (…) Wanda nos apresenta o primeiro rebento. O nome? Justamente uma homenagem à poeticidade que a fecundou: “O Beijo da Chuva” (…) que já vem dizendo muito do belo e do denso.”
Ao decidir “construir seu próprio caminho no emaranhado matagal da poesia”, escreveu o poeta Juracy Siqueira, “a preocupação maior, a cuíra poética” de Wanda Monteiro em o “Beijo da Chuva”, é com “o ser humano e as multifaces da vida real”.
Ao lermos o livro da estreante Wanda Monteiro, somos forçados a concordar com a criteriosa avaliação desse artífice da poesia que é Juracy Siqueira, ele próprio astro de primeira grandeza no cenário cultural da Amazônia:
– “O Beijo da Chuva” é um livro “úmido de emoções e grávido de significados para ser lido e absorvido sem pressa, como requer toda obra verdadeiramente artística.”
Na apresentação de “O Beijo da Chuva”, Wanda Monteiro pinta, com pinceladas e cores precisas, o seu auto-retrato:
– “Sou Amazônica, fruto do encontro de Amantes (…) Fui banhada e batizada nas águas amazônicas. Aprendi a respirar Água, a ouvir a voz do Vento, a sentir o cheiro da Chuva, a nadar na malha dos Mururés. Me encantei com a voz da Mata. Fui seduzida pelo olhar da Restinga. Me vesti de Terra, bebi o Rio, cresci e verdejei (…) Escrever! Esta é minha sina. Costurar películas de vida sofrida e sonhada. Deixando um rastro de poesia como testemunho de Mim.”
O livro de estréia da poetisa (ou simplesmente poeta, como ela se assume) Wanda Monteiro não tem páginas numeradas e nem índice remissivo. Creio que isso não é falha de editoração. Deve ser caso pensado, porque a lírica nascente de Wanda Monteiro não pode ser catalogada de modo burocrático, mas, sim, agrupada, como ela fez, em temas poéticos definidos, numa ordem que podemos subverter à vontade, sem prejuízo da boa leitura: o humano, a lavra, a criança, a mulher, o delírio, o desejo, o pecado, a ausência e a natureza.
Seus versos, tão ousados e libertos de amarras, fluem com a limpidez da prosa mais leve, e a sua prosa, em contrapartida, apresenta-se revestida de uma admirável densidade poética. O leitor pode ler o livro de Wanda do começo para o fim, de traz para a frente ou abrir o volume ao acaso, que, de qualquer modo, encontrará o fácies, risonho ou sofrido, mas claramente perceptível, do belo e do singelo.
De fato, em qualquer página sobre a qual pousarmos a vista em “O Beijo da Chuva”, lá acharemos a espuma da poesia, a nata da beleza, o supra-sumo da imaginação criadora e transformadora que espelha a realidade no momento mesmo em que a realidade espelha o poema imaginado, como no flagrante de sua volta a Belém (depois de longos anos radicada no Rio de Janeiro): no instante exato em que passava (passeava) pela Praça da República, “o vento fez a festa e a chuva caiu dançando ao seu sabor (…) A chuva escorria e com ela, corria sua memória (…) Tudo era tanto que ela foi inundada de tudo. E o fio do tempo laçou a Jovem Senhora para o seu tempo de Menina.”
Ou como, abrindo-se outra vez o livro ao acaso, nos deparamos com a comovedora síntese da vida do pai famoso, já octogenário e “combalido de querências”, a contemplar o verde e vago mundo que ele (re)criou e (re)viveu com a intensidade do mais acendrado amor:
Ode ao Pai – Verde Querência
Padeço dessa QuerênciaVontade!Da Água – verdejante – moventeDa Água brotando de Várzea à VárzeaDa Água vertendo em VeiasDe Veias de muitas ÁguasVontade!Da Terra costurada por RaízesDe Ilhas – raízes sob a pele d’águaDe céu-destampado-lavado-de-chuvaDe Cores que voam em Púrpuras GuarásDe Cores que nadam Régias e MururésVontade!Do Verde-molhado-fecundoDo Olhar de suas ÁguasDo Escuro de suas MargensDa Poesia de seus PeixesDo Canto de sua RestingaCombalido de QuerênciasSinto-Me VagoVago dessa TerraVago desse LíquidoVago desse VerdeVagoNo verdevagodemim
Wanda Benedicta Marques Monteiro nasceu em Alenquer em 21 de março de 1958, às margens do rio Surubiú. É a terceira filha de Benedicto Wilfredo Monteiro e de Wanda Marques Monteiro.
Advogada no Rio de Janeiro, com pós-graduação em MBA de Análises de Políticas Públicas, Wanda tem trabalhado, no Brasil, em projetos de ONGs internacionais, como a Save the Children, da Suécia, e a Fundação Ford, dos EEUU, e colabora com vários jornais e revistas, produzindo ensaios e crítica literária. Com seus irmãos, trabalha atualmente na criação e instalação da Fundação Escritor Benedicto Monteiro.
Mãe de Aline, André e Marcello – de seu casamento com Lino Brito Teixeira, de tradicional família alenquerense –, a novel escritora Wanda Monteiro comove até os espíritos mais empedernidos quando descreve o seu personalíssimo processo criativo:
Cavo a Vida eO sentido delaNa abstração do mundo que sonhoComponhoRecomponhoSentidosTodosCom elesPerco-me da RealidadeFactívelAbsurda!Me libertoDesse TempoQue demarca a VidaRepresa o PensamentoRoubando-lhe as coresOs sonsDesse tempoque emudeceQue desbotaFazendo pálida a memóriaMinha existênciaNão cabe na impassividade da RazãoQue me confinaque me objetaMinha existênciaSó cabe no SonhoEsculpidoNa crueza de minha InconsciênciaSouO que sonho Ser
A Jovem Senhora, que um dia “fechou os olhos, levantou a cabeça e ofereceu os seus lábios pra chuva” – como bem sugere a capa do livro, verdadeira obra-prima, fruto do talento de seu filho Marcello, expert em computação gráfica e arte visual –, fez questão de entregar aos conterrâneos de Alenquer que prestigiaram o lançamento da obra, exemplares que, com a dedicatória de “um beijo molhado de Chuva com gosto e cheiro de Surubiú”, com certeza logo se transformarão em relíquias guardadas com avidez e carinho.
Não há dúvida: Wanda Monteiro, com o seu livro de poemas “O Beijo da Chuva”, da Editora Amazônia, é a “estrela que sobe”.
Deliciemo-nos com a sua leitura, enquanto aguardamos o próximo que, prolífera e inquieta como ela é, certamente virá em breve tempo, quiçá sob a chuva ou debaixo o sol, posto que a autora deixou entrever em
Ambivalência
(…)
Por quê?Não me plantas em teu soloFértil de desejoDenso de possibilidadesQuem sabe,Ainda possa nascerORestoDeMim
————————————
* É advogado nascido em Alenquer. Reside em Belém.a os espíritos mais atilados, é tentador associar (ou comparar) a obra da nova estrela, que veio refulgir no céu da literatura paraense, com a do seu famoso pai – o advogado, político, contista, historiador, poeta e romancista Benedicto Monteiro.
De fato, “filho de peixe, peixinho é” – diz a milenar sabedoria do caboclo destas plagas.
Mas convém não restringir a abordagem da produção literária de Wanda Monteiro unicamente ao liame genético inquebrantável que a prende ao autor de “Verde Vagomundo”, “O Minossauro”, “A Terceira Margem”, “Aquele Um”, “O Homem Rio” – e tantas outras obras que se tornaram clássicos da literatura amazônica.
por Luiz Ismaelino Valente (*)
Cedendo à irresistível tentação, nem vacilei em surrupiar o título do romance de Marques Rebelo e do filme homônimo de Bruno Barreto para registrar um acontecimento da maior importância para mundo cultural do Pará: na noite de 17 de junho de 2009, o hall Benedicto Monteiro, do Centur, em Belém, foi o palco iluminado do lançamento, em meio a um show lítero-musical, do primeiro livro de Wanda Monteiro – “O Beijo da Chuva”.
Para a mídia em geral e mesmo para os espíritos mais atilados, é tentador associar (ou comparar) a obra da nova estrela, que veio refulgir no céu da literatura paraense, com a do seu famoso pai – o advogado, político, contista, historiador, poeta e romancista Benedicto Monteiro.
De fato, “filho de peixe, peixinho é” – diz a milenar sabedoria do caboclo destas plagas.
Mas convém não restringir a abordagem da produção literária de Wanda Monteiro unicamente ao liame genético inquebrantável que a prende ao autor de “Verde Vagomundo”, “O Minossauro”, “A Terceira Margem”, “Aquele Um”, “O Homem Rio” – e tantas outras obras que se tornaram clássicos da literatura amazônica.
Creio ter sido um dos primeiros, se não o primeiro, a ressaltar publicamente (perante os imortais confrades de seu pai na Academia Paraense de Letras, em palestra que lá proferi em 4 de novembro de 2008, a convite dos acadêmicos Edson Franco e Júlio Victor Moura, a propósito do meu ainda inédito “Memorial Poético de Alenquer”) – que, muito embora ela tenha herdado do pai a veia literária, é inquestionável que Wanda Monteiro “ostenta farol próprio a iluminar seus passos.”
Naturalmente, não terá sido nada fácil para Wanda, a filha, superar (não no sentido de destruir, mas de exceder, de acrescentar) a grandiosa, imponente e abrangente influência paterna, para, a partir dela, erguer a catedral do seu próprio e inconfundível estilo na arte poética, e, assim, brindar os seus leitores com peças inegavelmente antológicas como os poemas de “O Beijo da Chuva”.
É claro que o filho ou a filha não tem, obrigatoriamente, de se “distanciar”, de se “livrar” ou de se “libertar” da ascendência paterna para desbravar o seu mundo “independente”, mas, quando alguém decide realmente assumir o compromisso da entrega total e incondicional à arte, por qualquer de suas formas, tende, de modo natural e irresistível, a buscar a sua própria marca, a perseguir uma identidade ímpar, a construir, pedra por pedra, seu estilo pessoal, pois a verdade é que – “Le style est l’homme même”, como ensinou Buffon.
Alguns certamente estranharão essa estréia literária um tanto quanto tardia. Mas Wanda Monteiro não se fez de repente: sua obra é fruto de paciente, minucioso e irreversível amadurecimento intelectual e artístico.
Como a frágil lagarta, Wanda teve primeiro que se transformar em crisálida, tornando-se, assim, um autêntico lepidóptero, mas, para isso, precisou vencer a prova de resistência mais difícil de todas: romper o casulo no seio do qual se operou o milagre da transformação, para, então, e só então, voar livre e graciosa como borboleta.
O lento e prolongado processo evolutivo não pode ser alterado sem que se rompa a ordem natural das coisas. E Wanda não podia, logicamente, ceder, como deveras não cedeu, ao ímpeto, à pressa, à sofreguidão, à ligeireza no trato da palavra.
Sem a santa paciência e a resoluta persistência, Wanda Monteiro, a pequena lagarta, não se transformaria em borboleta, pois não conseguiria arregimentar as forças necessárias para sair do cárcere sedoso do casulo e ganhar as alturas das nuvens.
É com cândida franqueza, aliás, que Wanda Monteiro confessa, num de seus poemas, a delicada angústia, o terno embaraço, a criativa hesitação que a dominaram quando quis expressar sua peculiar inquietação diante do mundo – seja o real, seja o sonhado.
Pois foi exatamente assim que aconteceu quando a jovem adolescente, “com medo que as palavras cumprissem, sem o seu consentimento, sua sina de engendrar sonhos no Papel, engoliu as palavras e cravou os dentes, enclausurando-as”, ainda tão frágil como a crisálida, impotente diante do pergaminho imaculado:
O papel ficou olhando pra ela.Luzindo.Pobre do Papel.BrancoÁvido.À espera do primeiro verbo.
É, pois, com absoluta procedência e pontaria certeira que Carlos Correia Santos mira e atira na contra-capa de “O Beijo da Chuva”:
– “Ser herdeira das páginas escritas por um Monteiro tão Benedicto pode não ser genética das mais simples. Traz em si toda a placenta do desafio. Mas Wanda… ah, Wanda inventou de ir namorar a lua, foi se desnudar para o vento, beijou a chuva e o inevitável veio. Ficou grávida de pura arte. Fez-se mãe. Mãe de suas próprias páginas (…) Wanda nos apresenta o primeiro rebento. O nome? Justamente uma homenagem à poeticidade que a fecundou: “O Beijo da Chuva” (…) que já vem dizendo muito do belo e do denso.”
Ao decidir “construir seu próprio caminho no emaranhado matagal da poesia”, escreveu o poeta Juracy Siqueira, “a preocupação maior, a cuíra poética” de Wanda Monteiro em o “Beijo da Chuva”, é com “o ser humano e as multifaces da vida real”.
Ao lermos o livro da estreante Wanda Monteiro, somos forçados a concordar com a criteriosa avaliação desse artífice da poesia que é Juracy Siqueira, ele próprio astro de primeira grandeza no cenário cultural da Amazônia:
– “O Beijo da Chuva” é um livro “úmido de emoções e grávido de significados para ser lido e absorvido sem pressa, como requer toda obra verdadeiramente artística.”
Na apresentação de “O Beijo da Chuva”, Wanda Monteiro pinta, com pinceladas e cores precisas, o seu auto-retrato:
– “Sou Amazônica, fruto do encontro de Amantes (…) Fui banhada e batizada nas águas amazônicas. Aprendi a respirar Água, a ouvir a voz do Vento, a sentir o cheiro da Chuva, a nadar na malha dos Mururés. Me encantei com a voz da Mata. Fui seduzida pelo olhar da Restinga. Me vesti de Terra, bebi o Rio, cresci e verdejei (…) Escrever! Esta é minha sina. Costurar películas de vida sofrida e sonhada. Deixando um rastro de poesia como testemunho de Mim.”
O livro de estréia da poetisa (ou simplesmente poeta, como ela se assume) Wanda Monteiro não tem páginas numeradas e nem índice remissivo. Creio que isso não é falha de editoração. Deve ser caso pensado, porque a lírica nascente de Wanda Monteiro não pode ser catalogada de modo burocrático, mas, sim, agrupada, como ela fez, em temas poéticos definidos, numa ordem que podemos subverter à vontade, sem prejuízo da boa leitura: o humano, a lavra, a criança, a mulher, o delírio, o desejo, o pecado, a ausência e a natureza.
Seus versos, tão ousados e libertos de amarras, fluem com a limpidez da prosa mais leve, e a sua prosa, em contrapartida, apresenta-se revestida de uma admirável densidade poética. O leitor pode ler o livro de Wanda do começo para o fim, de traz para a frente ou abrir o volume ao acaso, que, de qualquer modo, encontrará o fácies, risonho ou sofrido, mas claramente perceptível, do belo e do singelo.
De fato, em qualquer página sobre a qual pousarmos a vista em “O Beijo da Chuva”, lá acharemos a espuma da poesia, a nata da beleza, o supra-sumo da imaginação criadora e transformadora que espelha a realidade no momento mesmo em que a realidade espelha o poema imaginado, como no flagrante de sua volta a Belém (depois de longos anos radicada no Rio de Janeiro): no instante exato em que passava (passeava) pela Praça da República, “o vento fez a festa e a chuva caiu dançando ao seu sabor (…) A chuva escorria e com ela, corria sua memória (…) Tudo era tanto que ela foi inundada de tudo. E o fio do tempo laçou a Jovem Senhora para o seu tempo de Menina.”
Ou como, abrindo-se outra vez o livro ao acaso, nos deparamos com a comovedora síntese da vida do pai famoso, já octogenário e “combalido de querências”, a contemplar o verde e vago mundo que ele (re)criou e (re)viveu com a intensidade do mais acendrado amor:
Ode ao Pai – Verde Querência
Padeço dessa QuerênciaVontade!Da Água – verdejante – moventeDa Água brotando de Várzea à VárzeaDa Água vertendo em VeiasDe Veias de muitas ÁguasVontade!Da Terra costurada por RaízesDe Ilhas – raízes sob a pele d’águaDe céu-destampado-lavado-de-chuvaDe Cores que voam em Púrpuras GuarásDe Cores que nadam Régias e MururésVontade!Do Verde-molhado-fecundoDo Olhar de suas ÁguasDo Escuro de suas MargensDa Poesia de seus PeixesDo Canto de sua RestingaCombalido de QuerênciasSinto-Me VagoVago dessa TerraVago desse LíquidoVago desse VerdeVagoNo verdevagodemim
Wanda Benedicta Marques Monteiro nasceu em Alenquer em 21 de março de 1958, às margens do rio Surubiú. É a terceira filha de Benedicto Wilfredo Monteiro e de Wanda Marques Monteiro.
Advogada no Rio de Janeiro, com pós-graduação em MBA de Análises de Políticas Públicas, Wanda tem trabalhado, no Brasil, em projetos de ONGs internacionais, como a Save the Children, da Suécia, e a Fundação Ford, dos EEUU, e colabora com vários jornais e revistas, produzindo ensaios e crítica literária. Com seus irmãos, trabalha atualmente na criação e instalação da Fundação Escritor Benedicto Monteiro.
Mãe de Aline, André e Marcello – de seu casamento com Lino Brito Teixeira, de tradicional família alenquerense –, a novel escritora Wanda Monteiro comove até os espíritos mais empedernidos quando descreve o seu personalíssimo processo criativo:
Cavo a Vida eO sentido delaNa abstração do mundo que sonhoComponhoRecomponhoSentidosTodosCom elesPerco-me da RealidadeFactívelAbsurda!Me libertoDesse TempoQue demarca a VidaRepresa o PensamentoRoubando-lhe as coresOs sonsDesse tempoque emudeceQue desbotaFazendo pálida a memóriaMinha existênciaNão cabe na impassividade da RazãoQue me confinaque me objetaMinha existênciaSó cabe no SonhoEsculpidoNa crueza de minha InconsciênciaSouO que sonho Ser
A Jovem Senhora, que um dia “fechou os olhos, levantou a cabeça e ofereceu os seus lábios pra chuva” – como bem sugere a capa do livro, verdadeira obra-prima, fruto do talento de seu filho Marcello, expert em computação gráfica e arte visual –, fez questão de entregar aos conterrâneos de Alenquer que prestigiaram o lançamento da obra, exemplares que, com a dedicatória de “um beijo molhado de Chuva com gosto e cheiro de Surubiú”, com certeza logo se transformarão em relíquias guardadas com avidez e carinho.
Não há dúvida: Wanda Monteiro, com o seu livro de poemas “O Beijo da Chuva”, da Editora Amazônia, é a “estrela que sobe”.
Deliciemo-nos com a sua leitura, enquanto aguardamos o próximo que, prolífera e inquieta como ela é, certamente virá em breve tempo, quiçá sob a chuva ou debaixo o sol, posto que a autora deixou entrever em
Ambivalência
(…)
Por quê?Não me plantas em teu soloFértil de desejoDenso de possibilidadesQuem sabe,Ainda possa nascerORestoDeMim
————————————
* É advogado nascido em Alenquer. Reside em Belém.a os espíritos mais atilados, é tentador associar (ou comparar) a obra da nova estrela, que veio refulgir no céu da literatura paraense, com a do seu famoso pai – o advogado, político, contista, historiador, poeta e romancista Benedicto Monteiro.
De fato, “filho de peixe, peixinho é” – diz a milenar sabedoria do caboclo destas plagas.
Mas convém não restringir a abordagem da produção literária de Wanda Monteiro unicamente ao liame genético inquebrantável que a prende ao autor de “Verde Vagomundo”, “O Minossauro”, “A Terceira Margem”, “Aquele Um”, “O Homem Rio” – e tantas outras obras que se tornaram clássicos da literatura amazônica.
Creio ter sido um dos primeiros, se não o primeiro, a ressaltar publicamente (perante os imortais confrades de seu pai na Academia Paraense de Letras, em palestra que lá proferi em 4 de novembro de 2008, a convite dos acadêmicos Edson Franco e Júlio Victor Moura, a propósito do meu ainda inédito “Memorial Poético de Alenquer”) – que, muito embora ela tenha herdado do pai a veia literária, é inquestionável que Wanda Monteiro “ostenta farol próprio a iluminar seus passos.”
Naturalmente, não terá sido nada fácil para Wanda, a filha, superar (não no sentido de destruir, mas de exceder, de acrescentar) a grandiosa, imponente e abrangente influência paterna, para, a partir dela, erguer a catedral do seu próprio e inconfundível estilo na arte poética, e, assim, brindar os seus leitores com peças inegavelmente antológicas como os poemas de “O Beijo da Chuva”.
Naturalmente, não terá sido nada fácil para Wanda, a filha, superar (não no sentido de destruir, mas de exceder, de acrescentar) a grandiosa, imponente e abrangente influência paterna, para, a partir dela, erguer a catedral do seu próprio e inconfundível estilo na arte poética, e, assim, brindar os seus leitores com peças inegavelmente antológicas como os poemas de “O Beijo da Chuva”.
É claro que o filho ou a filha não tem, obrigatoriamente, de se “distanciar”, de se “livrar” ou de se “libertar” da ascendência paterna para desbravar o seu mundo “independente”, mas, quando alguém decide realmente assumir o compromisso da entrega total e incondicional à arte, por qualquer de suas formas, tende, de modo natural e irresistível, a buscar a sua própria marca, a perseguir uma identidade ímpar, a construir, pedra por pedra, seu estilo pessoal, pois a verdade é que – “Le style est l’homme même”, como ensinou Buffon.
Alguns certamente estranharão essa estréia literária um tanto quanto tardia. Mas Wanda Monteiro não se fez de repente: sua obra é fruto de paciente, minucioso e irreversível amadurecimento intelectual e artístico.
Como a frágil lagarta, Wanda teve primeiro que se transformar em crisálida, tornando-se, assim, um autêntico lepidóptero, mas, para isso, precisou vencer a prova de resistência mais difícil de todas: romper o casulo no seio do qual se operou o milagre da transformação, para, então, e só então, voar livre e graciosa como borboleta.
O lento e prolongado processo evolutivo não pode ser alterado sem que se rompa a ordem natural das coisas. E Wanda não podia, logicamente, ceder, como deveras não cedeu, ao ímpeto, à pressa, à sofreguidão, à ligeireza no trato da palavra.
O lento e prolongado processo evolutivo não pode ser alterado sem que se rompa a ordem natural das coisas. E Wanda não podia, logicamente, ceder, como deveras não cedeu, ao ímpeto, à pressa, à sofreguidão, à ligeireza no trato da palavra.
Sem a santa paciência e a resoluta persistência, Wanda Monteiro, a pequena lagarta, não se transformaria em borboleta, pois não conseguiria arregimentar as forças necessárias para sair do cárcere sedoso do casulo e ganhar as alturas das nuvens.
É com cândida franqueza, aliás, que Wanda Monteiro confessa, num de seus poemas, a delicada angústia, o terno embaraço, a criativa hesitação que a dominaram quando quis expressar sua peculiar inquietação diante do mundo – seja o real, seja o sonhado.
Pois foi exatamente assim que aconteceu quando a jovem adolescente, “com medo que as palavras cumprissem, sem o seu consentimento, sua sina de engendrar sonhos no Papel, engoliu as palavras e cravou os dentes, enclausurando-as”, ainda tão frágil como a crisálida, impotente diante do pergaminho imaculado:
Pois foi exatamente assim que aconteceu quando a jovem adolescente, “com medo que as palavras cumprissem, sem o seu consentimento, sua sina de engendrar sonhos no Papel, engoliu as palavras e cravou os dentes, enclausurando-as”, ainda tão frágil como a crisálida, impotente diante do pergaminho imaculado:
O papel ficou olhando pra ela
Luzindo...
Pobre do Papel
Branco
Ávido
À espera do primeiro verbo.
É, pois, com absoluta procedência e pontaria certeira que Carlos Correia Santos mira e atira na contra-capa de “O Beijo da Chuva”:
– “Ser herdeira das páginas escritas por um Monteiro tão Benedicto pode não ser genética das mais simples. Traz em si toda a placenta do desafio. Mas Wanda… ah, Wanda inventou de ir namorar a lua, foi se desnudar para o vento, beijou a chuva e o inevitável veio. Ficou grávida de pura arte. Fez-se mãe. Mãe de suas próprias páginas (…) Wanda nos apresenta o primeiro rebento. O nome? Justamente uma homenagem à poeticidade que a fecundou: “O Beijo da Chuva” (…) que já vem dizendo muito do belo e do denso.”
Ao decidir “construir seu próprio caminho no emaranhado matagal da poesia”, escreveu o poeta Juracy Siqueira, “a preocupação maior, a cuíra poética” de Wanda Monteiro em o “Beijo da Chuva”, é com “o ser humano e as multifaces da vida real”.
Ao lermos o livro da estreante Wanda Monteiro, somos forçados a concordar com a criteriosa avaliação desse artífice da poesia que é Juracy Siqueira, ele próprio astro de primeira grandeza no cenário cultural da Amazônia:
– “O Beijo da Chuva” é um livro “úmido de emoções e grávido de significados para ser lido e absorvido sem pressa, como requer toda obra verdadeiramente artística.”
Na apresentação de “O Beijo da Chuva”, Wanda Monteiro pinta, com pinceladas e cores precisas, o seu auto-retrato:
– “Sou Amazônica, fruto do encontro de Amantes (…) Fui banhada e batizada nas águas amazônicas. Aprendi a respirar Água, a ouvir a voz do Vento, a sentir o cheiro da Chuva, a nadar na malha dos Mururés. Me encantei com a voz da Mata. Fui seduzida pelo olhar da Restinga. Me vesti de Terra, bebi o Rio, cresci e verdejei (…) Escrever! Esta é minha sina. Costurar películas de vida sofrida e sonhada. Deixando um rastro de poesia como testemunho de Mim.”
O livro de estréia da poetisa (ou simplesmente poeta, como ela se assume) Wanda Monteiro não tem páginas numeradas e nem índice remissivo. Creio que isso não é falha de editoração. Deve ser caso pensado, porque a lírica nascente de Wanda Monteiro não pode ser catalogada de modo burocrático, mas, sim, agrupada, como ela fez, em temas poéticos definidos, numa ordem que podemos subverter à vontade, sem prejuízo da boa leitura: o humano, a lavra, a criança, a mulher, o delírio, o desejo, o pecado, a ausência e a natureza.
Seus versos, tão ousados e libertos de amarras, fluem com a limpidez da prosa mais leve, e a sua prosa, em contrapartida, apresenta-se revestida de uma admirável densidade poética. O leitor pode ler o livro de Wanda do começo para o fim, de traz para a frente ou abrir o volume ao acaso, que, de qualquer modo, encontrará o fácies, risonho ou sofrido, mas claramente perceptível, do belo e do singelo.
De fato, em qualquer página sobre a qual pousarmos a vista em “O Beijo da Chuva”, lá acharemos a espuma da poesia, a nata da beleza, o supra-sumo da imaginação criadora e transformadora que espelha a realidade no momento mesmo em que a realidade espelha o poema imaginado, como no flagrante de sua volta a Belém (depois de longos anos radicada no Rio de Janeiro): no instante exato em que passava (passeava) pela Praça da República, “o vento fez a festa e a chuva caiu dançando ao seu sabor (…) A chuva escorria e com ela, corria sua memória (…) Tudo era tanto que ela foi inundada de tudo. E o fio do tempo laçou a Jovem Senhora para o seu tempo de Menina.”
Ou como, abrindo-se outra vez o livro ao acaso, nos deparamos com a comovedora síntese da vida do pai famoso, já octogenário e “combalido de querências”, a contemplar o verde e vago mundo que ele (re)criou e (re)viveu com a intensidade do mais acendrado amor:
– “Sou Amazônica, fruto do encontro de Amantes (…) Fui banhada e batizada nas águas amazônicas. Aprendi a respirar Água, a ouvir a voz do Vento, a sentir o cheiro da Chuva, a nadar na malha dos Mururés. Me encantei com a voz da Mata. Fui seduzida pelo olhar da Restinga. Me vesti de Terra, bebi o Rio, cresci e verdejei (…) Escrever! Esta é minha sina. Costurar películas de vida sofrida e sonhada. Deixando um rastro de poesia como testemunho de Mim.”
O livro de estréia da poetisa (ou simplesmente poeta, como ela se assume) Wanda Monteiro não tem páginas numeradas e nem índice remissivo. Creio que isso não é falha de editoração. Deve ser caso pensado, porque a lírica nascente de Wanda Monteiro não pode ser catalogada de modo burocrático, mas, sim, agrupada, como ela fez, em temas poéticos definidos, numa ordem que podemos subverter à vontade, sem prejuízo da boa leitura: o humano, a lavra, a criança, a mulher, o delírio, o desejo, o pecado, a ausência e a natureza.
Seus versos, tão ousados e libertos de amarras, fluem com a limpidez da prosa mais leve, e a sua prosa, em contrapartida, apresenta-se revestida de uma admirável densidade poética. O leitor pode ler o livro de Wanda do começo para o fim, de traz para a frente ou abrir o volume ao acaso, que, de qualquer modo, encontrará o fácies, risonho ou sofrido, mas claramente perceptível, do belo e do singelo.
De fato, em qualquer página sobre a qual pousarmos a vista em “O Beijo da Chuva”, lá acharemos a espuma da poesia, a nata da beleza, o supra-sumo da imaginação criadora e transformadora que espelha a realidade no momento mesmo em que a realidade espelha o poema imaginado, como no flagrante de sua volta a Belém (depois de longos anos radicada no Rio de Janeiro): no instante exato em que passava (passeava) pela Praça da República, “o vento fez a festa e a chuva caiu dançando ao seu sabor (…) A chuva escorria e com ela, corria sua memória (…) Tudo era tanto que ela foi inundada de tudo. E o fio do tempo laçou a Jovem Senhora para o seu tempo de Menina.”
Ou como, abrindo-se outra vez o livro ao acaso, nos deparamos com a comovedora síntese da vida do pai famoso, já octogenário e “combalido de querências”, a contemplar o verde e vago mundo que ele (re)criou e (re)viveu com a intensidade do mais acendrado amor:
Ode ao Pai – Verde Querência
Padeço dessa Querência
Vontade!
Da Água – verdejante – movente
Da Água brotando de Várzea à Várzea
Da Água vertendo em Veias
De Veias de muitas Águas
Vontade!
Da Terra costurada por Raízes
De Ilhas – raízes sob a pele d’água
De céu-destampado-lavado-de-chuva
De Cores que voam em Púrpuras Guarás
De Cores que nadam Régias e Mururés
Vontade!
Do Verde-molhado-fecundo
Do Olhar de suas Águas
Do Escuro de suas Margens
Da Poesia de seus Peixes
Do Canto de sua Restinga
Combalido de Querências
Sinto-Me Vago
Vago dessa Terra
Vago desse Líquido
Vago desse Verde
Vago
No verdevagodemim
Wanda Benedicta Marques Monteiro nasceu em Alenquer em 21 de março de 1958, às margens do rio Surubiú. É a terceira filha de Benedicto Wilfredo Monteiro e de Wanda Marques Monteiro.
Advogada no Rio de Janeiro, com pós-graduação em MBA de Análises de Políticas Públicas, Wanda tem trabalhado, no Brasil, em projetos de ONGs internacionais, como a Save the Children, da Suécia, e a Fundação Ford, dos EEUU, e colabora com vários jornais e revistas, produzindo ensaios e crítica literária. Com seus irmãos, trabalha atualmente na criação e instalação da Fundação Escritor Benedicto Monteiro.
Mãe de Aline, André e Marcello – de seu casamento com Lino Brito Teixeira, de tradicional família alenquerense –, a novel escritora Wanda Monteiro comove até os espíritos mais empedernidos quando descreve o seu personalíssimo processo criativo:
Cavo a Vida
Advogada no Rio de Janeiro, com pós-graduação em MBA de Análises de Políticas Públicas, Wanda tem trabalhado, no Brasil, em projetos de ONGs internacionais, como a Save the Children, da Suécia, e a Fundação Ford, dos EEUU, e colabora com vários jornais e revistas, produzindo ensaios e crítica literária. Com seus irmãos, trabalha atualmente na criação e instalação da Fundação Escritor Benedicto Monteiro.
Mãe de Aline, André e Marcello – de seu casamento com Lino Brito Teixeira, de tradicional família alenquerense –, a novel escritora Wanda Monteiro comove até os espíritos mais empedernidos quando descreve o seu personalíssimo processo criativo:
Cavo a Vida
O sentido dela
Na abstração do mundo que sonho
Componho
Recomponho Sentidos
Todos
Com eles
Perco-me da Realidade
Factível
Absurda!
Me liberto
Desse Tempo
Que demarca a Vida
Represa o Pensamento
Roubando-lhe as cores
Os sons
Desse tempo que emudece
Que desbota
Fazendo pálida a memória
Minha existência
Não cabe na impassividade da Razão
Que me confina
que me objeta
Minha existência
Só cabe no Sonho
Esculpido
Na crueza de minha Inconsciência
Sou
O que sonho Ser
A Jovem Senhora, que um dia “fechou os olhos, levantou a cabeça e ofereceu os seus lábios pra chuva” – como bem sugere a capa do livro, verdadeira obra-prima, fruto do talento de seu filho Marcello, expert em computação gráfica e arte visual –, fez questão de entregar aos conterrâneos de Alenquer que prestigiaram o lançamento da obra, exemplares que, com a dedicatória de “um beijo molhado de Chuva com gosto e cheiro de Surubiú”, com certeza logo se transformarão em relíquias guardadas com avidez e carinho.
Não há dúvida: Wanda Monteiro, com o seu livro de poemas “O Beijo da Chuva”, da Editora Amazônia, é a “estrela que sobe”.
Deliciemo-nos com a sua leitura, enquanto aguardamos o próximo que, prolífera e inquieta como ela é, certamente virá em breve tempo, quiçá sob a chuva ou debaixo o sol, posto que a autora deixou entrever em
Ambivalência
(…)
Por quê?
Ambivalência
(…)
Por quê?
Não me plantas em teu solo
Fértil de desejo
Denso de possibilidades
Quem sabe
Ainda possa nascer
O Resto
De Mim
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* ISMAELINO VALENTE
* ISMAELINO VALENTE
É advogado nascido em Alenquer. Reside em Belém.


